Espinhos e rosas
O INÍCIO DA MINHA HISTÓRIA
Imagino que você já tenha parado para contemplar uma rosa. Tão desejada e bela. Mas antes que suas pétalas vermelhas se abram com tanta delicadeza, ela carrega espinhos. Assim também foi a minha história, longe do perfume das flores, em meio aos espinhos, em que a beleza era apenas uma promessa.
Nascida e criada em Itaquera, na periferia da cidade de São Paulo. Lembro que minha infância foi marcada por períodos de dificuldades financeiras, mesmo que meus pais trabalhassem dia e noite para prover o que precisávamos. E como qualquer criança, eu tinha muitos sonhos e desejava muitas coisas para o meu futuro. 
Mas havia um sonho que brilhava mais que qualquer outro, fazer aulas de danças. Eu me encantava ao assistir as dançarinas nos programas de TV, meus olhos brilhavam e só pensava em como eu mesma poderia me tornar uma grande dançarina. Mas para que isso se tornasse realidade o caminho não seria fácil.
Cresci sendo muito amada por meus pais, mas convivi desde cedo com a rigidez do meu lar. Lembro que ao compartilhar com meu pai meu sonho, tive minha primeira frustração ao vê-lo desacreditar do meu sonho. Para ele, aquele desejo era algo passageiro, mas para mim, apesar de ser ainda criança, sabia que tinha algo especial na dança. 
Eu amava tanto dançar, que minha brincadeira favorita era usar um controle de tv como microfone, imitar a Joelma da banda Calypso, e me imaginar no palco de programas de televisão, como o Raul Gil, que fazia tanto sucesso na época ao levar crianças para se apresentarem. Ah! como eu sonhava em ser uma daquelas garotinhas que se apresentavam e cantavam. Eu amava passar meus dias me imaginando nos palcos, realizando o meu grande sonho. 
Aprendi, muito nova, que a maior parte das situações não são favoráveis a nós. E que para chegar onde tanto sonhamos, precisamos lutar, e nunca desistir, certamente o trajeto não será de rosas, mas de muitos espinhos. E que as feridas que os espinhos nos causam, transformam-se em cicatrizes, que serão combustível que nos levará até onde queremos chegar. Um sonhador sem feridas, é alguém que ainda não trilhou a rota necessária para o destino final.
Eu ainda era pequena, mas os espinhos do trajeto já haviam sido apresentados a mim, e ao invés de voltar atrás, decidi continuar, até alcançar todos os meus objetivos. Eu sabia que se quisesse ter uma vida diferente dos meus pais, e realizar meus sonhos, eu precisaria permanecer firme. 
Meu pai havia me falado, que por razões financeiras, não havia a possibilidade de me matricular em uma escola de dança, e convicta de que queria lutar pelos meus sonhos, decidi convencer meu pai a me levar no teste do programa do Raul Gil, enxerguei ali minha única chance. O programa oferecia diversos prêmios aos ganhadores, mas eu tinha apenas um em mente: a oportunidade do meu pai enxergar aquela paixão que existia em mim, pela dança, e então eu poder fazer as aulas que eu tanto sonhava.
Me lembro de  insistir constantemente, até que recebi de meu pai a resposta de que ele me levaria ao programa. Aquele foi um momento de muita alegria para mim, mas apenas o início da jornada.
Os dias se passaram, e chegou o grande dia, e já não seria um dia comum. Me recordo da minha determinação naquela manhã. Tomei meu café, me arrumei e coloquei uma roupa que minha mãe tinha feito para mim, um vestido inspirado nos looks da cantora Joelma. Parecia um sonho, eu estava nas instalações de uma rede de televisão. Tudo ali me chamava atenção, era como um parque de diversões. 
Ao lado do meu pai, caminhamos para o local do teste, e lá fomos informados de que existiam duas etapas no processo de audição. Cada etapa era eliminatória, o que fazia com que a pressão aumentasse. Apesar de todas as circunstâncias contrárias, o nervosismo do teste e a pressão de meu pai, existia uma voz em minha mente, e que agora reconheço,  que me trouxe paz e tranquilidade. E foi confiando nessa Voz, que tive e mantive a calma necessária para passar na primeira fase.
Mesmo sabendo que ainda haveria uma segunda etapa, celebrei intensamente a aprovação no primeiro teste. Um sopro de alívio me envolveu, e a confiança cresceu dentro de mim. Era como se meus espinhos começassem a ceder, pouco a pouco, diante da vitória. Mas o caminho não estava livre, havia ainda um trecho áspero, marcado pela dor. Não se engane, são os espinhos e não as pétalas que mais nos ensinam, são eles que forjam a força necessária para chegar ao destino final preparados para qualquer batalha. Ainda assim, confesso: a dor é imensa. E, muito cedo, precisei aprender a atravessá-la.
A garotinha que estava feliz e empolgada por ter sido aprovada na primeira fase do teste, agora estava triste e cabisbaixa por ter sido reprovada na segunda. A tristeza maior estava em saber os fatores que me eliminaram. A segunda dança precisaria ser realizada como a primeira, enquanto o primeiro teste analisava talento e criatividade, a segunda etapa analisava técnica. 
Eu não tinha técnica, eu tinha sonho e dedicação. A técnica viriam das aulas de dança que nunca havia feito. Ao perceber que a falta de preparo foi a causa da reprovação no teste, meu coração se inundou de tristeza e de uma raiva silenciosa contra meu pai. Recordo de que, ao final da apresentação, uma das produtoras do programa o chamou de lado e, com olhar firme, disse que eu carregava talento, mas carecia de técnica. Perguntou então se já havia pensado em me colocar em aulas de dança. Suas palavras, em vez de me confortarem, acenderam ainda mais minha indignação. Culpei meu pai por aquele fracasso, por nunca ter investido no meu sonho, por não ter me dado a chance de ir ainda mais longe. Lembro de voltar para casa naquele dia em silêncio, alimentando os sentimentos de mágoa e raiva diante da presença do meu pai. 
Passado os dias esperava que meu pai mudasse de ideia e finalmente me colocasse nas aulas de dança, porém ele manteve sua decisão e resistiu por mais quatro anos, sem nem pensar em me matricular em uma escola, mesmo com as minhas súplicas diárias. Ele achava que eu acabaria desistindo. De certa forma eu o entendia, afinal, vivíamos em condições financeiras complicadas. A preocupação dele era de assumir um compromisso sem a certeza de que conseguiria manter e ainda o medo das coisas apertarem mais e faltar para dentro de casa. Mas mesmo criança, eu sabia que todo esforço e persistência valeria a pena, e nada seria em vão.
Nas frustrações da minha infância, o meu caráter foi formado. Agora, uma Estefany que não desistia  das batalhas residia dentro de mim. Eu não poderia imaginar que ela, um dia, me ajudaria a vencer as guerras que eu passaria, mas Deus já sabia o que estava fazendo. Aquele caminho de espinhos na infância havia sido um caminho preparado por Ele, para que estivesse pronta a suportar as aflições da vida.
O SONHO SE REALIZANDO
Após longos anos insistindo para meu pai me levar às aulas de dança, algo aconteceu, em uma visita do meu tio Altair. Logo de cara ele percebeu minha tristeza, como andava cabisbaixa e perguntou o motivo. Meu pai imediatamente respondeu sobre a minha persistência em um sonho que seria passageiro. Diante daquela resposta, meu tio me olhou pensativo, para minha surpresa, ele me disse que iríamos procurar uma escola de dança. Meu coração disparou, aquelas palavras me fizeram sentir algo  único. O que tanto esperava finalmente iria acontecer, eu iria para uma escola de dança. Era um sonho realizado.
Naquele mesmo dia visitamos a Escola Nacional de Danças Keila Afonso. Me lembro que no primeiro contato com professora da escola, criei um carinho e afeição por ela. Era um sábado, cheguei à escola às 10h e saí somente às 17h. Fiz todas as aulas daquele dia. Naquele dia, meu pai fez a minha matrícula. Não havia sido apenas um dia comum, seria o começo da minha trajetória na dança.
Como tudo até ali não foi facilmente conquistado, me manter nas escola profissionalmente, também não seria. Com a dificuldade financeira que minha família vivia, as mensalidades da escola estavam longe de ser o ideal para nossa realidade. Porém, a gentil professora da escola, encantada comigo e com meu talento, incluiu no pacote algumas modalidades gratuitas. Eu não perdi tempo, e imediatamente me matriculei em tudo que pude, ballet, jazz, dança do ventre, ginástica rítmica, contemporâneo, stiletto, sapateado, dança de salão, e tudo que a escola poderia me oferecer como oportunidade. 
Com a técnica que eu precisava, aliada ao talento, pude viver experiências incríveis através da dança. Lembro dos espetáculos, competições, festivais e cursos que comecei a participar. Tudo aquilo era a realização de um sonho. Eu me dedicava tanto, que aos quatorze anos passei a  fazer estágios, trabalhar nas escolas com recreação dando aula de baby class. Depois de alguns anos, passei a dar aula na escola em que um dia me matriculei como aluna.
LUTAS QUE ME MOLDARAM
Ao longo dos anos, as condições financeiras da minha família não melhoraram muito. Meus pais batalharam muito para sustentar a família, e para que eu pudesse continuar na escola de dança, meu pai pagava a mensalidade da escola e minha mãe costurava figurinos para os espetáculos em troca dos gastos extras, como as roupas para apresentações, as taxas do teatro e os exames anuais. A dedicação da minha mãe ficou marcada em mim, pois a vi  lutar para que eu pudesse continuar fazendo o que eu amava. Lembro das noites sem dormir, costurando figurinos e ajudando minha mãe. Como na noite anterior a minha formatura, em que juntas costuramos os figurinos de mais de quatrocentos alunos. Ah! Como foi árduo aquele trabalho,  fiquei tão cansada que quase não acordei para a apresentação. Mas, dentro de mim, já havia nascido uma Estefany moldada pela luta e persistência, e foi essa versão de mim, que na manhã seguinte estava no palco, feliz, sorridente e realizada por me apresentar diante de um grande público.
Um dos momentos mais marcantes da minha vida aconteceu naquele dia, ao subir no palco, pude olhar para a plateia e ver meu pai, que outrora não queria me matricular na escola de dança, mas ali ele estava chorando e orgulhoso de mim.
Aquele homem rígido, que acreditava que meu sonho duraria tão pouco, já não estava mais ali. Ele finalmente enxergou meu esforço e a persistência que me mantiveram naquele palco. Aquele que antes não queria investir no meu grande sonho, agora, ao lado da minha mãe, era o meu maior apoiador.
As lutas que enfrentei ainda tão jovem moldaram quem sou. Elas me deram a essência de uma batalhadora, alguém que não se rende diante das quedas. As adversidades para conquistar um lugar na escola de dança, somadas às dificuldades financeiras da minha família, foram os espinhos que precisei atravessar ao longo da caminhada.
A verdade é, que ao caminhar em direção ao meu sonho, fui ensinada a inexistência de rosas sem espinhos. Antes de alcançar sua beleza, é preciso conviver com a dor. Cada espinho fere, e nos lembra que a conquista nunca é entregue sem esforço, que a caminhada é feita de obstáculos, de lágrimas e de sofrimento. Assim são os sonhos, assim é a vida, bela em seu destino, mas dolorosa em seu processo. Quem deseja as pétalas precisa aprender a lidar com os espinhos, pois somente quem tudo suporta pode desfrutar plenamente da beleza que o espera no fim.
A forja da minha infância fez com que eu tomasse a forma de alguém que luta e corre atrás do que quer, mas ainda não era a forja de Deus. A minha infância e o início da minha juventude me prepararam para o que estava por vir. Haveria uma forja, ainda que intensa, e que exigiria de mim força para aguentá-la, e ajudar quem um dia passasse por ela.