Olá, funk
Você já se dedicou intensamente a algo?
Recentemente li uma matéria em um jornal, em que dizia que pessoas que se dedicam ao que ama atingem grandes resultados. Bom, na minha juventude eu me dedicava a apenas uma coisa, a arte, principalmente a dança. Era visível que aquilo era o que me fazia levantar todas as manhãs. Lembro de deixar de lado viagens, festas de famílias e muitos outros prazeres da adolescência para ensaiar e me preparar para apresentações. Era tanto tempo de ensaio, que passei a usar a boa e velha desculpa dos dançarinos, quando alguém me convidava para algo, sempre dizia: “não posso, tenho ensaio”. O que era uma desculpa, tornou para mim uma verdade, a escola de danças e artes se tornou minha casa, o lugar em que passava horas e horas dos meus dias.
Minha mãe, ao perceber meu talento, decidiu investir mais, mesmo com poucos recursos. Além da dança, ela me levava para fazer portfólios em agências de modelos, cursos de passarela e incentivava a trabalhar em lojas como modelo. Os resultados começaram a aparecer, e aos poucos toda a dedicação gerou frutos. A primeira conquista foi o primeiro lugar em um dos maiores concursos de modelos do país, o concurso do Leão Lobo, uma grande referência na área. Para além dos resultados e ganhos que tinha, a arte para mim era fonte de prazer. Eu a amava em todas as suas formas.
Fiz alguns anos de teatro e apresentei várias peças, inclusive fiz algumas participações em algumas novelas no SBT, não em elenco principal, mas em elenco de apoio. Dentre as novelas que participei, estão: “Cúmplice De Um Resgate”, “Carinha de Anjo” e “As Aventuras de Poliana”.
Mas cedo, sofri com as consequências das minhas escolhas, enquanto me dedicava intensamente à minha carreira, passei a deixar de lado duas outras áreas da minha vida que passaram para segundo plano, como a escola e a igreja.
Confesso que não gostava de estudar, minhas notas sempre ficaram na média, me dando condições necessárias para apenas passar de ano. Além da falta de dedicação nos estudos, a escola era o local onde uma outra Estefany aparecia, a que cabulava aulas e arrumava brigas. Meus pais sempre precisavam resolver os problemas que eu arrumava na escola. Eles viam que enquanto eu me dedicava à arte, na escola eu não tinha dedicação alguma. Eu era uma adolescente rebelde, que mentia.
Meus pais eram católicos não praticantes. Eles não tinham costume e compromisso de ir para a igreja. Mas por nascer em uma família católica, participei da Catequese e até cheguei a dançar em algumas celebrações. Ainda assim, a igreja nunca foi um lugar em que eu gostasse de estar. Diferente da minha irmã, que sempre esteve firme na fé em Cristo, envolvida nas missas e nos grupos de jovens, eu comparecia apenas para acompanhar meus pais, sem dedicação ou profundidade alguma na fé.
No fundo, sabia que Jesus era importante, mas ainda não havia experimentado um verdadeiro encontro com Ele. Essa ausência de relacionamento com o Senhor, ainda na juventude, começou a abrir um espaço dentro de mim. Um vazio profundo e brechas, que, ao longo dos anos, tentei preencher de diversas formas.
A forja da adolescência estava me formando para um só lugar, me tornar uma grande dançarina. E tudo que não estava relacionado a dança ou a arte, seria deixado de lado, inclusive a fé.
O CONVITE
Durante a minha carreira passei a criar muitas conexões com pessoas do mundo da dança, que me ajudaram a chegar em lugares que nunca imaginei estar, como os programas do Raul Gil, Ratinho e Eliana. Agora, eu não era apenas uma sonhadora, eu era uma dançarina que me apresentava em rede nacional e ganhava para viver de seu sonho.
Em 2018, eu realizei alguns trabalhos de atuação no SBT, e passei a construir relacionamento dentro da emissora, então além das novelas, comecei a dançar nos programas. Esse convite me fez voltar no passado e me lembrar do dia em que fui reprovada no teste de dança do programa do Raul Gil. Na primeira vez que estive ali, era apenas uma pequena menina, com grandes sonhos, agora eu havia me tornado uma mulher que trabalhava com o que amava e era reconhecida por isso.
Ao entrar para o SBT, passei a dançar para muitos cantores de destaque nacional e ao verem meu potencial, passaram a me convidar para trabalhar em videoclipes, inicialmente, criando coreografias. Diferente do que muitos pensam, esses trabalhos exigem técnica, estudo e precisão, não se trata apenas de colocar mulheres dançando para a câmera. Meus anos de formação na dança me deram a base para criar coreografias de qualidade, e logo comecei a me destacar nesta área. Em pouco tempo, minha agenda estava lotada, com gravações praticamente toda semana, o que me motivou a investir ainda mais na carreira.
No início da minha trajetória com a dança, eu me dedicava a estilos musicais como o ballet, jazz, dança do ventre e tudo que a arte me possibilitava. Apesar de ter nascido e crescido na periferia, eu não costumava dançar funk e nem me dedicar a aprender este estilo musical. Eu amava danças clássicas, e o funk era o oposto disso, por isso eu tinha preconceito com o gênero musical. Porém, como criadora de coreografias para videoclipes, muitas portas no mundo do funk se abriram para mim, pois em grande maioria, os videoclipes com os quais eu trabalhava na época, eram de cantores de funk.
Foi neste contexto que eu passei a frequentar ambientes que antes eu não frequentava. Passei a ter contato com todo tipo bebidas, drogas e bastidores intensos. Nunca tive nenhum interesse em cigarro ou maconha e outros tipos de drogas, então apenas tolerava a presença disso ao meu redor, afinal, era meu ambiente de trabalho.
Mesmo que não consumisse nenhuma dessas coisas, algumas brechas estavam sendo abertas em mim. Uma mulher sem uma fé sólida e sem raízes profundas em Deus, agora habitava em ambientes que só causavam destruição para a alma. Eu não percebia, mas aos poucos comecei a entrar no território do inimigo, e aceitar o que deveria ser inaceitável. E isso seria o começo de algo destrutivo, e mais tarde eu passaria a viver coisas que me transformariam completamente. A forma que eu estava assumindo agora, me tornava distante do Criador.
O INÍCIO NO FUNK
Ao receber grande destaque criando coreografias para cantores de funk, passei a integrar a equipe de ballet de um dos artistas mais conhecidos do funk na época. A proposta, por mais tentadora, poderia mudar o rumo da minha carreira para sempre. Eu me sentia insegura e pensei que não era boa o suficiente, que aquela oportunidade não era para mim.
Foi então que decidi conversar com minha mãe sobre essa decisão e abrir meu coração. Afinal, existiam duas coisas que estavam me afligindo: a primeira era que por vim do ballet clássico, sempre tive preconceito com o funk; e a segunda era que eu tinha uma grande dúvida se fazia o teste ou não. Contei a ela todos os meus medos, e para minha surpresa ela me incentivou a aceitar a proposta. Decidi seguir seu conselho, cheia de medo e insegurança, mesmo com a sensação de que não eu não seria boa o suficiente.
Ao chegar no local onde seria realizado o teste, encontrei cerca de vinte meninas, para apenas duas vagas. Sabia que a disputa seria acirrada, teríamos que aprender três coreografias, uma delas era improviso, o que para mim, era a parte mais fácil. Estava acostumada a ensaiar oito ou nove coreografias em um único dia. Porém, eu fiquei tão nervosa que momentos antes do teste, ao ver a coreógrafa ensinando os passos da apresentação, minha mente se esvaziou, eu só conseguia questionar o que estava fazendo ali, senti meu corpo travar e achei que não conseguiria.
No momento da apresentação, respirei fundo, dei o meu melhor e consegui uma boa apresentação. Após o teste, voltei para casa satisfeita, com a sensação de que, independentemente do resultado, eu havia me arriscado. E antes mesmo de chegar em casa, o telefone tocou, com a notícia de que havia sido aprovada. Ali eu daria o passo que faria da dança minha profissão.
Apesar de dançar constantemente em shows e apresentações, e ter criado diversas coreografias para cantores conhecidos, eu ainda não conseguia ter uma vida financeiramente estável, pois os valores pagos para uma bailarina eram valores bem inferiores comparados a outras profissões.
O funk me permitiu viver experiências que nunca foram inimagináveis, principalmente viajar por todo o Brasil, e para outros países.
Eu sentia que estava chegando no auge. Passei a estar em grandes palcos, diante de grandes multidões. Foram experiências únicas. Até então, minhas apresentações haviam se limitado a teatros e espetáculos menores, nos palcos de grandes eventos, o arrepio era inevitável, eu amava cada segundo.
Após entrar para a equipe de dança deste artista de renome continuei investindo em minha carreira. Em paralelo aos shows, eu continuava criando coreografias para diversos clipes, estudando na faculdade e dando aulas em sete escolas diferentes. A dança ocupava praticamente toda a minha vida, não tinha espaço para mais nada, mas tudo aquilo fazia parte da minha realização.