Uma barbearia, Raabe e a Luz
Logo morando em Alphaville, o nosso amigo PK indicou uma barbearia próxima ao nosso condomínio, que era a mesma barbearia que ele cortava o cabelo. Então o Jotta passou a frequentá-la também. Essa barbearia se tornaria a chave de mudança em nossas vidas. Ela seria o canal de Deus para mudar as nossas vidas.
Com a indicação do nosso amigo, o Jotta descobriu a Peaky Barbers. Rapidamente aquele lugar virou seu lugar de descanso. Do meu lado, eu via o Jotta sair pesado e voltar um pouco mais leve, como se alguém tivesse tirado uma pedra de seu bolso. No começo, confesso que fiquei desconfiada. Porque será que ele demora tanto nesta barbearia? Mas havia algo diferente. As suas conversas, após voltar da barbearia, não se pareciam em nada com as de alguém que acabou de voltar de uma fuga ou festas, pois elas carregavam a Verdade. E, embora eu estivesse distante de Jesus, reconheci que o “perfume” que acompanha o Jotta quando voltava da barbearia era diferente.
Com o tempo, percebemos que não era só um estabelecimento comum, era um encontro providencial. O dono, Sandor, mais conhecido como San, tinha uma escuta que não julgava e uma sabedoria que não humilhava. João falava dos seus vícios, das bagunças financeiras, de culpas e vazios, e o San respondia com frases que atravessavam a superfície: “Isso é espiritual.” Aquilo me desconcertava. Eu não queria admitir, mas as palavras que faziam o João pensar, também me alcançaram, mesmo que não estivesse lá.
Um tempo depois, recebemos um áudio do San, que descrevia, com divina exatidão, tudo que estávamos vivendo. Detalhes à respeito de nosso relacionamento, como se por todo este tempo ele estivesse em um canto de nossa sala. Ninguém havia nos conhecido em tamanha profundidade. Aquele áudio foi a primeira rachadura na muralha, que eu mesma havia levantado.
Após o áudio, passamos a ter San e sua esposa como amigos mais íntimos. De alguma forma, sabíamos que poderíamos confiar neles. A amizade foi crescendo, até que decidimos levá-los em um churrasco em nossa casa, que se transformou em uma grande revelação, San e sua esposa eram pastores. Ao saber disso fui tomada pela vergonha e pelo alívio, pela sujeira que carregamos e porque alguém, nos vendo em nosso pior, escolheu permanecer.
Nesse processo, comecei a entender que a amizade deles era uma mão estendida. E foi ali que, sem grandes discursos, a forja começou a apertar em nosso lar. Enquanto o Jotta era ministrado na Barbearia, o Espírito Santo ministrava em mim durante os meses da gestação da nossa primeira filha. O Espírito começou a me constranger durante este período.
“Mas ela será salva tendo filhos, se permanecer em fé, amor e santificação, com bom senso.” (1 Timóteo 2:15)
Agora, além de mulher de um lar, eu também era mãe. Um zelo diferente nasceu em mim. E este zelo, cooperou com a quebra da forma imperfeita que eu havia assumido ao longo dos anos, e me direcionou para o fogo, que me transformaria em uma mulher segundo o desejo de Deus.
Após o nascimento de nossa filha, fiz um dos pedidos mais importantes para o João, para que ele não fumasse maconha dentro de casa. Não era só por saúde, mas também porque eu nunca havia gostado do cheiro e principalmente do uso. Naquela época, ele estava no auge do vício, e não era a primeira vez que eu havia pedido para ele parar. Na primeira vez, quando estávamos no início da relação e ele estava tentando me conquistar, lembro que parou de usar por um tempo por mim, mas agora, na segunda vez que eu havia solicitado, a resposta, diante de um profundo vício foi um não!
Com isso, nossas brigas se intensificaram, gerando uma crise em nosso relacionamento. Eu estava grávida, com nojo daquele vício em maconha que ele tinha e extremamente decepcionada. Após nossa filha nascer, veio a decisão dele parar de fumar.
Aquela atitude era pequena? Talvez. Mas como aprendemos, a obediência, quase sempre, começa em pequenos passos. Eu ainda não tinha entregado a vida para Jesus, mas havia, de forma inconsciente entrado em um caminho que me direcionava para seus braços, e eu não estava caminhando sozinha. Deus estava me moldando, me forjando, para ajudar o meu companheiro a ser forjado por Ele também. Por isso, eu fazia esses pedidos, para que pudéssemos ter nossa vida transformada.
Quando penso nessa fase da minha vida, me lembro de Raabe. Não porque nossas histórias sejam parecidas, mas porque sua vida me ensinou algo essencial, a fé que salva uma casa começa com decisões concretas. Raabe vivia do lado errado do muro, mas, quando acreditou, amarrou uma corda vermelha na janela e protegeu os seus (Josué 2 e 6).
Eu não sabia orar como deveria, e na verdade nem sabia muito o que era isso, mas comecei a amarrar minhas pequenas “cordas vermelhas”, os limites que pus para a maconha, o não às práticas que sujavam nosso relacionamento, o acolhimento às verdades duras que vinham do San. Esses gestos, simples e insistentes, foram fios de salvação pendurados na janela do nosso lar.
A forja queimava, com chamas cada vez mais ardentes. O vício do João em maconha não acabou de um dia para o outro, ao contrário, foi necessário um choque para que houvesse um basta. Haviam noites em que ele passava mais tempo na rua, fumando, do que perto de mim. Foram anos com esse vício, o que desgastou muito a nossa relação. Por diversas vezes eu pedi para ele parar, mas sem sucesso. Cheguei a dizer: “Ou eu ou a maconha", e a resposta que tive foi: “não existe essa opção de parar". Para ele era chato ficar em casa comigo e com nossa filha. Ele ficava agressivo e tinha crises de ansiedade. Discutimos. Chorei. Tive medo.
Durante esse processo aprendi, e aqui vejo a mão de Deus, que a mulher virtuosa nem sempre faz barulho, ela sustenta vigas. Minha firmeza não era arrogância, era preservação. Minha doçura não era omissão, era convite à mudança. À medida que eu abraçava essas posturas, sem perceber, algo nele também se deslocava. A minha forja empurrava a dele. Como Raabe salvou os seus não por força, mas por um passo de fé, eu via o João, gota a gota, sendo atraído para casa, e para Deus.
Outra corda vermelha foi o fim das práticas sexuais que nos adoeciam. Decidimos dar um basta nisso, pois não queríamos que nossa filha Athena crescesse nesse ambiente e nem presenciasse essas práticas. Um dia, depois de mais uma experiência vazia, eu disse: “Chega.” Doeu admitir que aquilo, que antes parecia liberdade, na verdade era um cativeiro. Para minha surpresa, o Jotta concordou. Foi um “sim” ao vazio verdadeiro e um “não” às máscaras. Ali, sem saber, eu estava entregando minha casa, para que aos poucos, o Senhor edificasse (Pv 14.1). E cada tijolo assentado, um limite, uma renúncia, um basta. Era mais do que disciplina, era esperança encarnada.
Eu ainda não tinha a linguagem do evangelho, afinal nem havia entrado em uma igreja ou confessado Jesus como meu único e suficiente salvador, mas de alguma forma o evangelho já me tinha. O San e a Dálete, sua esposa, se tornaram faróis para nós. João continuava indo à barbearia, e cada ida era essencial. Não era religião jogada na nossa cara, era misericórdia prática. E aos poucos, de maneira sobrenatural, os meus olhos se abriram e eu entendi o meu papel. Ser uma mulher virtuosa não é ser perfeita, é ser fiel aos pequenos passos que protegem a promessa. O lar que eu guardava, com seus limites e afetos, estava se tornando o lugar onde Deus aquecia o coração do João.
Hoje eu consigo nomear, a amizade do Jotta com o San foi a porta de Betânia para nós, a cidade onde mortos levantam, como Lázaro. E a minha parte, naquela mesma história, foi amarrar a corda e manter a janela aberta, como Raabe. A forja queimou em mim, para que o fogo também alcançasse o ferro dele. E foi assim, entre uma ida à barbearia e um limite no cotidiano, que Deus começou a nos refazer, ele, sendo conduzido de volta, e eu, aprendendo a guiar nossa casa com sabedoria. Juntos, ainda imperfeitos, mas já marcados pelo calor da graça.