Olá, Jesus!
Nossa vida estava mudando, mas havia um passo a mais que precisávamos dar. Este passo foi influenciado, durante muitos anos, por um amigo do Jotta, chamado Léo, que faz parte da sua vida desde a escola. Ele é filho de pastor, e sempre falava de Jesus, e eu via como essas palavras, por mais que o João fingisse não ligar, sempre encontravam um cantinho para ficar. O Léo e a Larissa, sua esposa, são tão próximos que se tornaram padrinhos da Athena.
Por anos, o Léo insistiu na mesma ideia de abrir uma célula em nossa casa. E eu o respondia com silêncio do João. No fundo, eu também carregava minhas resistências e preconceitos, não queria admitir, mas tinha medo do que Deus poderia mexer dentro de nós.
Depois que nos aproximamos do San e da Dálete, algo começou a aquecer embaixo das cinzas. Eu via o João menos defensivo quando o assunto era Deus. Então, um dia, ele criou coragem e ligou para o Léo contando que abriríamos uma célula em nossa casa, com a condição de que o San liderasse. O João confiava nele como não confiava em mais ninguém naquela época.
Após conversar com Léo, ele informou o San sobre a célula, e tudo estava alinhado. Porém, no dia que aconteceria a célula, o Jotta recebeu a notícia de que o San não conseguiria estar presente. Um casal que ele discipulava estava em crise séria, ele precisava estar com eles. O João me ligou imediatamente, e pediu para que eu avisasse o seu amigo Léo, de que a célula não aconteceria mais.
Naquele momento, eu respirei fundo e liguei para o Léo, disposta a cancelar a célula que aconteceria em nossa casa. Porém, conduzido pelo Senhor, ele foi firme, e disse que chamaria uma pastora de confiança para conduzir o encontro naquela noite. Durante a ligação, uma paz como eu nunca havia sentido entrou em meu coração. Não esperei a aprovação do João. Decidi manter a porta aberta. A célula iria acontecer.
Naquele dia, o Jotta passou o dia em gravação, ao chegar e abrir a porta de casa, convicto de que encontraria a casa vazia, ele se surpreendeu ao ver aquelas sete pessoas na sala de casa, um casal de vizinhos, o Léo e a Larissa, eu, a pastora e uma amiga dela que ele não conhecia. Eu reconheci na hora o seu olhar furioso, aquela mistura de irritação e constrangimento. Ele me lançou o olhar que só marido e mulher entendem, “O que você fez?”, e eu respondi com a única frase que o desmoronaria “Você não vai dizer que não quer fazer a célula?”. Ele respondeu todo sem graça: “Claro que eu quero”.
Eu não disse isso para humilhá-lo, disse para salvar o momento. Às vezes amor também é empurrar a porta quando a mão do outro hesita. Ele respirou, arrumou a postura, e aceitou. Ainda que tenha resistência, mas aceitou.
Logo de cara, para manter o controle, ele avisou à pastora que ele escolheria o louvor. Eu temi que ela se ofendesse, mas ela sorriu e concordou com tanta simplicidade, que até eu fui desarmada. Fizemos uma roda, ele colocou um louvor do Davi Sacer e, de repente, a nossa sala ficou pequena para o que começou a acontecer ali.
Eu observei o João de olhos fechados, braços cruzados, e aos poucos, notei seu rosto mudar, os ombros perderem a rigidez, a respiração se acalmou. Eu não sei explicar o que aconteceu naquela noite, eu mesma ainda não tinha entregue minha vida a Cristo, mas reconheci a presença de Deus invadindo a nossa casa com uma doçura que doía. O que eu senti ali, nunca tinha sentido antes.
Em meio ao louvor, vi o João abrir os olhos de repente, procurando o Léo ao lado, como quem tenta achar uma explicação. Ninguém tinha falado nada… até que ele ficou pálido, surpreso, como se tivesse ouvido algo que só ele podia ouvir.
Quando a canção terminou, a pastora abriu a Bíblia, e logo em seguida, a fechou. Olhou para o João e disse, com a segurança de quem apenas repassa um recado, “Deus mandou te entregar algo. Em muitas casas, Ele envia anjos. Hoje, na sua, Ele mesmo falou ao seu ouvido.”
Naquele instante, eu soube que tudo havia mudado. O João não precisou me contar o que tinha ouvido; eu vi em seus olhos. Era o mesmo olhar de quem encontra água depois de uma estadia no deserto. E eu, que minutos antes tinha segurado a maçaneta para que aquela reunião não fosse cancelada, entendi minha parte, minha coragem de manter a porta aberta foi a fresta por onde Jesus entrou.
Eu ainda carregava dúvidas, medos, e um coração em forja. Mas naquela noite, entre uma decisão prática e um louvor simples, o nosso lar foi visitado. O João, tão resistente, ouviu: “Finalmente você me deixou entrar.” E eu, em silêncio, agradeci. Porque, sem saber direito como orar, eu tinha feito o que cabia a uma mulher que começa a se tornar virtuosa: proteger a casa, sustentar o ambiente, insistir na presença. A forja dele seguiu, a minha também. Mas, a partir dali, já não estávamos mais sozinhos.
UM ENCONTRO COM AS TREVAS
Após a célula terminar, em um momento de comunhão, a pastora disse algo ao Jotta: “Nesta semana você vai passar por uma experiência espiritual… não precisa ficar com medo, mas você precisa assistir.” Eu fiquei com aquilo martelando em minha cabeça. Eu não entendi tudo, mas senti que Deus estava nos preparando. Existia um sentimento em mim: “meu Deus, o que será que vai acontecer?".
Naquela mesma semana, na sexta-feira, o João saiu para ir ao “estúdio” de um DJ conhecido, para fazer mais uma música. Dessa vez eu não fui, pois a Athena era muito pequena. Porém, a verdade é que eu não poderia estar lá, pois Deus sabe de todas as coisas. Então ao vê-lo sair, eu orei rapidamente “Senhor, guarda o João”, e logo adormeci.
Mais tarde, acordei com a porta batendo, e ele me sacudiu com os olhos muito abertos: “Eu nunca mais vou fumar maconha.” Não era promessa impulsiva, era definitivo. Ele contou, entre pausas, sobre uma sala escura, fumaça, um clima pesado, o DJ falando horas como se outra voz o usasse, “pregando” a Bíblia para o aprisionar. No auge de seu pânico, o João abriu a varanda e sussurrou pedindo ajuda ao Leão da Tribo de Judá. Ali, Deus o tirou pela mão.
Enquanto ele me contava, o medo me dominava. Uma opressão espiritual dominou a nossa casa. Era como se aquilo que havia falado com ele, também tivesse seguido-o. Enquanto me falava o que havia acontecido, o Jotta se controlava para não ter uma crise. De fato, o que ele presenciou o impactou muito.
Eu só escutei e abracei. Reconheci a mão de Deus: a mesma presença que encheu nossa sala na célula, agora invadiu um apartamento estranho para resgatar o homem que eu amava. Eu só sabia agradecer, porque o que eu orava há anos aconteceu: ele finalmente abandonou o vício em maconha que eu tanto odiava. Essa situação nos mostrou que Deus usa pessoas para falar conosco, mas se ignorarmos, ele manda até Satanás e ele obedece.
No mesmo dia, o Jotta jogou fora tudo que ele tinha e não agradava ao Senhor: acessórios, drogas e até a roupa que ele estava usando.
Os dias seguintes foram faxina de acordos, convites cancelados, limites firmes, pequenas orações ao menor sinal de tentação. Procuramos o San e a Dálete, que nomearam o contexto que estávamos de guerra espiritual, e nos ancoraram no simples: Palavra, oração, comunhão, vigilância. O extraordinário virou marco, não muleta. E algo mudou no apetite do João, onde antes havia anseio pelas drogas, nasceu fome pela Bíblia.
Eu também fui alcançada. O milagre dele converteu meu coração passo a passo, deixei de romantizar o que nos adoecia, parei de tratar pecado como “estilo de vida”, fechei brechas no lar, guardei as portas, escolhi amizades que oram. Descobri que a mulher virtuosa é presença que protege, menos espetáculo, mais altar aceso todos os dias. Minha firmeza virou abrigo, meu abraço, terreno para a graça trabalhar.
Deus me ensinou que autoridade de esposa é silêncio com convicção e casa santificada. E vi o João amadurecer, desejou ser discipulado, prestava contas, se enchendo dos sinais de quem trocou a servidão da vontade própria pela liberdade da obediência.
Hoje eu entendo a palavra da pastora, eu só precisei assistir e preparar o lugar do encontro. Jesus entrou e o inferno recuou. Deus não acendeu o vício, mas apagou a mentira. Para mim, o maior milagre não foi ver o mal, foi ver nascer amor pela santidade. O João saiu daquela noite com medo, entrou em casa com convicção. Eu, que o acordei para ouvir “nunca mais”, acordei também para uma nova vida.
Ele voltou diferente, não perfeito, mas diferente, e eu também. A forja dele acendeu a minha, meu “sim” pavimentou o caminho do “sim” dele. No fim, aprendi, mulher virtuosa não manipula mudança, prepara caminho. E quando há caminho, Jesus sempre entra.
O SIM PARA JESUS
Até então, nós já estávamos sendo puxados para Deus, mas ainda faltava o passo que selaria nossa entrega completa, confessar Jesus como único e suficiente Salvador. O San nos convidou para um culto na PAZ Church em Santana de Parnaíba, e eu fui com o coração meio trêmulo e ansioso. Quando ouvi a história do início daquela igreja, sobre missionários que deixaram tudo para plantar a primeira comunidade no meio da Amazônia, alcançando ribeirinhos, algo em mim reconheceu a origem, aquilo tinha cheiro de propósito e de obediência verdadeira.
Naquela noite, durante o culto haveria uma peça da companhia Jeová Nissi, O Peregrino. Um homem carregando um fardo que simbolizava pecado até se encontrar com Jesus e ver o peso cair. A arte sempre falou comigo, Deus usou exatamente isso para atravessar minhas defesas. Enquanto o ator caminhava curvado, eu me vi naquele corpo, enquanto ele encontrava Cristo, eu senti o meu próprio fardo soltando do peito. Antes mesmo do apelo, eu já chorava. Olhei para o João, e os olhos dele estavam marejados. Sussurrei “vamos?” e ele só apertou minha mão. Fomos ao altar juntos, de joelhos, rendidos, de mãos dadas, sem soltar por um minuto. O San estava ali, emocionado. Ele e a Dálete vinham nos acompanhando com paciência e oração. Ali nós entendemos, não como teoria, mas como nascimento, entregamos nossa vida a Jesus.
Lembro que, ao chegarmos em casa, olhamos um para o outro e falamos “E agora?". Mesmo sem saber, sentimos a paz que excede todo entendimento.
Pouco tempo depois, selamos publicamente aquilo que Cristo já estava fazendo em secreto, descemos às águas do batismo dias depois, em nossa casa e com nossa filha de apenas 4 meses assistindo. Foi muito especial! Entramos na água com nosso velho eu, e saímos com a certeza de que pertencemos a outro Reino.
A partir dali, abrimos nossa casa semanalmente ao discipulado com o San e a Dálete, e era como entrar em uma escola espiritual: Palavra aberta, oração, jejum, prestação de contas. A cada encontro, Deus tratava uma área, a cada oração, uma nova entrega. O evangelho deixou de ser lembrança e virou respiração. Cristo havia entrado, e tudo começou a ganhar forma dentro de nós. Além disso, desde a primeira célula em casa, nunca mais paramos. Todas as terças-feiras era o nosso compromisso. De 7 pessoas, viraram mais de 90 pessoas sedentas por Jesus, semanalmente em nossa casa.
O SIM PARA O JOTTA
A transformação não foi mágica, foi forjada. Mesmo já livres dos costumes antigos, ainda precisávamos ser moldados. No discipulado, o San tocou num ponto que eu sempre tratei como detalhe, nosso estado civil diante de Deus. Vivíamos juntos, tínhamos uma vida inteira compartilhada, mas não havíamos firmado aliança. Doeu ouvir a palavra certa para o que vivíamos, fornicação, não porque faltasse amor, mas porque faltava obediência. O San explicou com clareza e misericórdia, casamento não é só papel, é pacto espiritual, um “sim” perante Deus que ordena a casa e santifica a união. Sexo é santo dentro dessa aliança, fora dela, fere até quando parece carinho.
E mais uma vez me senti envergonhada e cheia de alívio, por ter tratado como pequeno o que para Deus é grande, e porque me foi revelado o caminho para a correção. Decidimos obedecer. Marcamos a data e, até lá, fizemos um voto de pureza, sem relações sexuais até o casamento. Foi difícil porque exigiu desfazer hábitos, mas, dia após dia, percebemos que a pureza é a presença de Deus ocupando espaços que antes chamávamos de “direitos”.
A casa mudou de som. A paz deixou de ser visita e virou moradora. O que nos confrontou também nos libertou, não era sobre religião, era sobre aliança e obediência. Em menos de dois meses, estávamos no cartório, dizendo “sim” um ao outro e, principalmente, dizendo “sim” a Deus. Não sabíamos para onde tudo aquilo nos levaria, mas sabíamos por quem estávamos sendo guiados. A partir daquele “sim”, os passos ganharam direção, e o nosso casamento, que já tinha história, ganhou fundamento. Foi o primeiro gesto concreto de um propósito que começava a se revelar e nós, finalmente, no caminho certo.