A Renúncia
Desde aquela primeira terça-feira, nossa casa nunca mais ficou vazia de Deus. Toda semana abrimos a porta para oração, louvor, palavra e lágrimas. Eu mesma consagrei cada cômodo: “Senhor, esta também é a Tua casa.” E Ele veio. Nossa casa recebeu o lindo nome de “Casa de Paz". A mesa virou altar, a sala virou sala de cura. Dois anos se passaram assim, entre jejum, Bíblia, discipulado com o San e a Dálete e, nesse caminho, o Espírito Santo começou a tocar em áreas que eu achava “intocáveis”.
Uma dessas áreas era justamente a fonte de renda do João, o funk. No começo, só um incômodo. Depois, um peso santo. Eu via nele o conflito entre gratidão pela história construída e a convicção de que aquele ciclo tinha acabado. Quando o João marcou a reunião com o empresário, o mesmo que havia investido tudo nele, eu já orava para que nossa obediência não fosse negociável. Ele voltou dizendo: “Expliquei que não é sobre dinheiro; é sobre Jesus.” O empresário não entendeu. De certa forma eu sabia que nosso “sim” ao Senhor custaria caro.
Foi quando os bastidores se revelaram. Descobrimos conexões do empresário com facções, algo grande, sujo e perigoso. Pedir a quebra contratual foi como cutucar um sistema que lucra com controle e medo. Começaram as ameaças diretas, e de imediato pediram o pagamento da multa contratual. Se não pagássemos os três milhões da multa, haveria violência. Eu tive medo, sobretudo, porque além da nossa filha Athena, que ainda era muito pequena, eu estava grávida do Samuel, nosso segundo filho. Foram muitas noites em oração, dizendo: “Jesus, cerca nossa casa.”
Mesmo diante desta situação difícil, continuamos a fazer a obra, reunindo dezenas de pessoas semanalmente em nossa casa. Era lindo, pois Deus começou a salvar pessoas na sala da nossa casa. Em uma dessas noites, um homem que eu nunca tinha visto ouviu nosso testemunho, inclusive sobre a dívida que nos esmagava, e disse olhando nos nossos olhos: “Senti no coração: vou pagar essa multa.” Eu tremi por dentro. Soou como refrigério depois do deserto.
A conversa avançou. Explicamos que não era uma simples transferência, havia uma facção no meio. Ele disse que estava disposto a tratar, e marcou a reunião. Foram ele, o João e o pastor San. O relato do João, quando voltou, foi duro, uma recepção agressiva, ameaça explícita, exigência de dinheiro vivo.
Lembro que durante esta reunião, eu em casa, grávida e com a Athena no colo, o Jotta me ligou dizendo: “Ora para eu voltar, pois a coisa está feia aqui". Foram momentos de aflição!
Nosso “intercessor” ofereceu tudo o que tinha, postos, imóveis e tudo foi recusado. Em jejum, eles permaneceram firmes, e ao final arrancaram um acordo: pagar de 150 a 200 mil reais por mês até quitar, além disso, nos deram 3 dias para sairmos de casa, pois ela foi incluída para abater uma parte da multa. Saímos dali com fôlego novo. Choramos juntos. Achei que o vale havia terminado.
Trinta dias depois, a cobrança chegou. O João tentou falar com o homem, que sumiu sem resposta. Amigos próximos nos confirmaram que ele prometera a muitos o mesmo. O chão abriu sob nossos pés. Liguei para os intercessores, ajoelhei no quarto, e ouvi o João dizer aos que nos cobravam, “Ele nos deixou na mão.” Naquela noite, aprendi que a fé também chora, mas chora aos pés certos.
O João compartilhou a lembrança que o Espírito trouxe, Abraão, Sara e Agar. A diferença entre Ismael (ansiedade com cara de solução) e Isaque (promessa no tempo de Deus). Aquele “benfeitor” era o nosso Ismael, resposta rápida, fora da direção do Senhor. Doeu reconhecer, mas curou. Não era Deus quem falhava, éramos nós tentando “ajudar” Deus com atalhos.
Decidimos permanecer no centro da vontade de Deus e honrar o acordo, mês após mês, de 150 a 200 mil enviados. Em 3 dias, saímos da nossa casa. Eu grávida, com uma filha de menos de 1 ano no colo. Só levamos nossas roupas, o restante, tudo que havíamos conquistado, deixamos para trás. Móveis planejados, eletrodomésticos e muito mais.
Confesso que não havia sobra, mas também nunca nos faltou. Nossa mesa estava cheia do que necessitávamos, e a conta fechava de maneira inexplicável. E cada boleto pago virou memorial, Deus que pede renúncia é o Deus que nos sustenta.
Veio então outro sacrifício, o romper com as casas de apostas. Eram 200 mil por mês para postar “dinheiro fácil”. Eu sabia que isso nos feria a consciência. Romper significava abrir mão de sustento num momento em que não tínhamos reserva, tínhamos gasto demais com vaidades e aparências. Olhei para o João e disse: “Prefiro uma mesa simples com paz do que um banquete com mentira.” E quebramos o contrato. O vazio em nossa conta bancária foi imediato; a paz no espírito, também.
Nesse processo, eu fui forjada. Aprendi a proteger o lar sem me desesperar, a vigiar entradas (amizades, convites, propostas) e a manter a casa acesa para
Deus, não para o medo. Minha oração mudou de tom: menos “por que?” e mais “como o Senhor quer que eu caminhe hoje?”. Descobri que renúncia não é só perder; é abrir espaço para o que é eterno.
Se me perguntarem onde Deus estava enquanto andávamos por corredores de ameaça, eu respondo, em nosso meio, segurando nossa mão. Ele nos ensinou a discernir o barulho do atalho e a esperar a música da promessa. Hoje, seguimos pagando, seguimos orando, seguimos abrindo a sala às terças. E seguimos crendo que Isaque vem no tempo certo, sem mentira, sem jeitinho, sem facção por trás.
Renunciar ao funk, ao dinheiro fácil e às alianças tortas nos custou reputação, conforto e noites de sono. Mas nos devolveu consciência limpa, autoridade espiritual e paz.